Acauã e Jacira haviam se conhecido nos jogos indígenas do ano anterior. Embora fossem de tribos diferentes, casaram-se. Tiveram o consentimento de ambas as tribos que, ainda adversárias na competição, eram amigas. Acauã era um guerreiro respeitado por suas conquistas e por sua generosidade. Era o cacique de sua tribo. De um conhecimento ímpar, tinha a visão além do alcance das turbulências de picuinhas cotidianas. Já bem vivido, sempre era procurado para dar conselhos e orientações. Jacira era bela, divertida e alegre, tinha a capacidade de aglomerar as pessoas em torno de sua amizade.
No torneio que viria, Acauã preparou-se com seu melhor amigo para formarem uma dupla na competição. Acauã e Ubiratã, seu amigo, competiram bravamente contra muitos outros guerreiros. Durante as comemorações do evento, Ubiratã conheceu a formosa Potira, amiga de Jacira.
Enamoraram-se Ubiratã e Potira. Tentaram se entender. Brigaram, separaram-se então. Potira chorou e procurou Acauã para pedir-lhe conselho a respeito do amigo guerreiro Ubiratã. Acauã refletiu muito. Convidou Potira para um ritual a fim de explicar a ela a essência da alma de um guerreiro.
“Nós guerreiros buscamos a superação dos nossos limites físicos e psicológicos. Isto denota uma qualidade de expansão de nossos domínios, uma ânsia por liberdade e conquista. Liberdade refere-se ao romper a barreira dos limites, e refere-se ao poder de escolha. A conquista refere-se ao domínio sobre si mesmo, à expansão de espaço, da velocidade e do tempo. Em resumo, um espírito guerreiro.” Potira mostrou-se atenta, seus olhos piscaram e se arregalaram, como que seus ouvidos seguissem a mesma dilatação. E Acauã continuou, dizendo “Nisto, um desafio é algo a ser conquistado, se quisermos. Liberdade e conquista estão presentes. Há a liberdade de escolha de se fazer essa conquista. O guerreiro não aceita ser dominado ou escravizado, ele prefere enfrentar a morte a aceitar essa submissão. O campo de batalhas é transposto para o campo de relacionamento da mesma forma. Ele quer liberdade e conquista.” Potira ameaçou interromper, mas os olhos de Acauã a impediram. Ela fez sinal para que ele continuasse, precisava saber mais.
Acauã acenou para que ambos se sentassem no grande tronco caído que servia de descanso para os guerreiros nos
intervalos dos jogos. “Esta liberdade é física e mental”, continuou. “O guerreiro assume as responsabilidades daquilo que faz, assume o tomar conta de si mesmo. Porém, carregar outra pessoa como sua responsabilidade seria o mesmo que arramar esta grande tora nos seus pés. Ele jamais quererá ser responsável pela felicidade de alguém, pois ele não precisa de alguém para ser feliz, ele é feliz por si mesmo. Ser feliz é uma responsabilidade individual. E ele deseja isto para a outra pessoa, ou seja, ele espera que a outra pessoa também seja responsável por si mesma. Sendo, então, as duas pessoas felizes por responsabilidades de si mesmas, então elas poderão ter uma convivência que não fira os valores do guerreiro. Este é o respeito que ele espera da outra pessoa.”
Acauã ergueu suas mãos em direção à fogueria, juntou as palmas e trouxe ao peito. “No dia-a-dia, os mesmos valores estão presentes, sempre. No momento em que você passa a exigir do guerreiro, você está tirando a liberdade de escolha dele, e ao mesmo tempo não lhe dá a oportunidade da conquista. Então ele perde o interesse, pois sente-se desrespeitado. O relacionamento com um guerreiro deve ser um convite, jamais uma exigência. Se você quer algo dele, convide-o a isso. Será muito mais saudável e mais gostoso. Mas lembre-se de que ele tem a liberdade de escolha, e tem o direito de dizer não. Você não deve ficar triste se a resposta dele for não, afinal, a felicidade não depende do outro, você é feliz por si mesma. Convide-o novamente numa outra oportunidade, de maneira diferente. Esta exigência de que falo é bem abrangente…É como o céu que carrega as estrelas… Jamais exija que ele seja gentil com você. Ele será se quiser fazê-lo, se sentir que estará conquistando você com isso. Não exija que ele se lembre de datas que você julga importantes, ou mesmo que ele lhe traga a Lua no dia do seu aniversário. Sua felicidade não deve depender disto.”
Potira formava imagens na sua cabeça. Guerreiros, Lua, animais selvagens, gritos. Tudo se movia rápido demais para que ela pudesse definir o que acontecia. Acauã pousou a mão em sua nuca, tirando-a do transe. “Permita que haja a oportunidade dele conquistar você. Situações falsas são facilmente percebidas pelo guerreiro, ele pode não dizer, mas sente. Emboscadas são as piores táticas que se pode querer usar com um guerreiro, sua flecha voltará para você. Jamais tente manipulá-lo ou colocá-lo em situações que você sabe que ele não quer passar. Isto é traição. Seja sincera, mas respeite-o. Saiba observar e perceber quando você está sendo invasiva. O guerreiro precisa também de tempo só pra ele, precisa de momentos de solidão para equilibrar as energias. Saiba perceber este momento. Lembre-se de seus instintos. Você liga seu instinto quando está na presença de um animal selvagem. O guerreiro também é animal, seu instinto está muito mais presente na sua vida do que na maioria das pessoas.”
Potira fitou a grande Lua daquela noite e deixou o vento invadir seus mais intrínsecos pensamentos. Terminado o ritual com Acauã, saiu a caminhar sozinha pelo leito do rio que refletia não só a Lua, mas a sua alma. A vida para ela era simples. A conquista existia uma única vez e a distância era a maneira que entendia sobre como respeitar a individualidade. Entendia que ser feliz era uma característica nata, mas precisava reforçar este dom em si mesma nos gestos e palavras sublimes de outrém. Acreditava na espontaneidade do prazer, do respeito, da sinceridade, como as flores que desabrocham em dias ensolarados e atraem os insetos para espalhar o pólen. Negava a existência de seus espinhos e dos dias chuvosos. Sedutora, provocante, gostava do sabor desse mel. Julgava-se segura de si ao mesmo tempo em que necessitava da confirmação da sua felicidade.
Ubiratã e Potira nunca mais de viram. Cada um seguiu o seu caminho e foram felizes para sempre.
Denis Luque