Publicado por: Denis Luque | 19/10/2010

Trilha, rasga-mato, mar revolto e hipotermia

Relato da corrida de aventura Haka Race de 02/out/2010 em Bertioga – SP, Brasil

A correria antes da largada pra checar equipamentos, preparar a bike e ajeitar a mochila já acelera os batimentos cardíacos. O vento atrapalha bastante para plastificar o mapa em cima do capô do carro. Gruda, enrola, embola. As nuvens carregadas me trazem um arrependimento em deixar o anorak no carro e corro pra pegá-lo. O frio me faz mexer as pernas parado no mesmo lugar enquanto o Prof Léo dá as últimas recomendações no briefing da prova. 10, 9, 8… A galera embola embaixo do pórtico de largada! 132 equipes. 3, 2, 1… Vai!!!

Categoria Pró largando com bike do canto da praia no Jd. S. Lourenço, Bertioga-SP. Sentido NE na bússola, logo as rodas ganham a areia da praia de Itaguaré. Opto pelo uso das sapatilhas apesar do trecho curto de 3km na bike. Transição (PC1) para o longo trekking ainda na praia, são mais 6,5km correndo até o início da trilha. O primeiro trecho reto de 3,5km de trilha ajuda a navegação até o PC2. A partir daí, foco e atenção total não são suficientes para seguir sem problemas,  pois a trilha some e volta, rasga-mato com azimute fixo pra corrigir a rota e encontrar a trilha novamente, onde a velocidade pode ser maior. Vários trechos alagados no rasga-mato com raízes altas e finalmente a visão do início da serra ajuda a localizar a trilha até o PC3, em boa parte acompanhado do Diogo e da Elaine, outros atletas solo, e depois ao PC4 à beira do rio completando mais 7,5km de treking no mato. Visto o colete salva-vidas e pulo no rio sem cerimônias, atravesso nadando do jeito que estou: capacete, tênis, mochila, luvas, tudo. A água fria dá uma travada nas pernas, que até o momento já somam 20,5km de prova. Os próximos 2km de corrida até o PC5 parecem pesar mais nas pernas que os 20km anteriores. PC5 e transição para a bike.

Tiro mochila, colete, tênis, visto sapatilha, mochila e 1km pedalável até o óleo-duto enterrado… E dá-lhe mais 3km num atoleiro que só o 4×4 do Prof Léo pra sair dali com as próprias rodas! Minha bike olha pra mim, faz cara de choro e tenho que carregá-la no colo. Fim do trecho sobre o óleo-duto, PC7, entro na Riviera de São Lourenço, com um olho na roda e outro no mapa, contorno o labirinto das ruas do bairro até o PC8. Dalí para praia, até o rappel é uma linha reta… de areia movediça! A areia da praia da Riviera parece comer as rodas da bike. Saio OMRP (O Mais Rápido Possível!!) no primeiro acesso às ruas e sigo por dentro até uma estradinha de areia, então ao posto de salva-vidas e de novo pra areia. Ergo a bike na cabeça e atravesso a foz de outro rio. Mais 300m, chego no PC10 do rappel, cadeirinha, mosquetão, ATC, faço o rappel de sapatilha de bike mesmo. Volto pra bike, cruzo até a praia de Indaiá até o PC de transição para a canoagem.

“Vou tirar de letra esse mar” é o meu pensamento. Furo a arrebentação sem problemas, apesar do tamanho das ondas. Mochila presa no caiaque com gancho, uma caramanhola no colo, a remada no mar não rende, pareço mal sair do lugar. Um jet ski dos bombeiros resgata um atleta que tentava vencer o trecho de ondas fortes e marolas gigantes. O primeiro objetivo é contornar o morro entre as praias Indaiá e da Riviera. O segundo é chegar até a outra ponta da Riviera mais ao norte. Vou de braçada após braçada num sobe e desce nas marolas gigantes. Lembro-me daquele filme… “Mar em fúria”. A impressão é de que os desníveis chegam a 4m e quando desce vem a mesma sensação de uma montanha russa, aquele frio na barriga. Uma após outra, e meu corpo começa a me lembrar que não sou muito resistente a brinquedos de parque de diversão… 3km remando, vem a primeira náusea e o inevitável vômito. Segundo a Wikipedia, “Vômitos prolongados e excessivos irão depletar o corpo de água (desidratação) e podem alterar o balanço de eletrólitos do corpo.” São 4,5km no caiaque e estou quase terminando de passar o morro. O mar parece aumentar sua fúria, algumas ondas quebram próximas às pedras do morro. Alguns atletas viram o caiaque e vão pra água. Segundo vômito. O meu rendimento cai e tudo o que penso é em sair do mar rapidamente. Sigo em direção à areia, penso em arrastar o barco no raso pelos 5km de praia até a outra ponta. Desço no raso e as ondas quebram forte, arrancam o barco da minha mão duas vezes. Não tem jeito, tenho que voltar pro fundo.

Subo no barco, sem náusea consigo remar forte pra vencer a arrebentação. Primeira onda, aquele espumão todo, alinho o barco bem de frente pra onda e inclino o corpo todo pra frente. Passo. Segunda onda quebrando mais em cima, inclino o corpo pra frente. O caiaque inclina até uns 60 graus pra cima e eu passo. Remo mais forte. Terceiro espumão, 40 graus, 60 graus, 80 graus… 180 graus! Seguro na alça lateral pra não perder o barco. A outra mão agarra firme o remo. Não dá pé, subo no caiaque rapidamente antes da próxima onda. Força pra frente de novo até chegar no sobe e desce do marzão. A outra ponta da praia parece um cenário de tão longe. Aos poucos vou vendo o progresso da remada pelos prédios da orla da praia que vão ficando para trás. Vez ou outra vejo um caiaque distante, mais pro fundo, quando coincidem os ápices das marolas gigantes. Por falar em marola gigante… Terceiro vômito. Não consigo mais me alimentar nem beber. Perdi a caramanhola no retorno pra dentro do mar quando o caiaque virou. Sigo remando sem muitas forças, já desidratado e sem carboidrato no corpo pra queimar. O mar continua batendo. Quarto vômito. Náusea forte, não consigo focar a visão. “Só tem um jeito disso acabar logo: remando forte”. Acelero o ritmo e consigo ver o movimento de pessoas no PC11. Passo a arrebentação em direção à areia. Equilibro uma onda, duas… A terceira onda quebra em cima de mim, joga o barco na minha cabeça, o mundo vira e eu afundo. Levanto-me, por sorte já dá pé. Fim dos 10km de canoagem. Agarro o caiaque e o arrasto até o PC.

Mal consigo dizer meu número para o staff no PC11. Visto a mochila nas costas, são só mais 300m a pé até o pórtico de chegada pra completar os 50km de prova. As articulações estão duras e o corpo treme de frio. Olhos arregalados, respiração ofegante. Vou trotando até quase a ponta da praia. Passo pelo amigo Marcos, “Vc tá bem?” Balanço a cabeça que sim, balanço a cabeça que não. Meu bronzeado vira um pálido branco cera. Só 100m para a chegada. “Cadê o seu cobertor de emergência?” Não consigo responder, só aponto pra mochila nas minhas costas enquanto me aproximo do pórtico. Não me deixo parar, 7h de prova, vou terminar! Cruzo o pórtico! Medalha no pescoço, a tremedeira aumemta, não consigo falar… Hipotermia! Tremedeira, boca rígida, olhos arregalados, pálido, não falo, só respondo às perguntas apontando a mão que balança uns 20cm quando o dedo indica alguma direção. Enrolado no lençol de alumínio, tenho pronto atendimento dos amigos Marcos, Letícia, Guilherme e do staff Guidson. O banho quente e a barra de proteína ajudam na minha rápida recuperação. Obrigado! Depois, mais uns 15min debaixo das cobertas. Pronto, novo em folha!

                       Denis Luque

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Publicado por: Denis Luque | 24/08/2010

Peru – Cordillera Huayhuash, Cordillera Blanca, Pisco

Após a  primeira trilha de aclimatação em 31/julho no Parque Nacional Huascarán, onde subimos até a Laguna Churup aos pés de picos nevados, fomos até Matacancha, passando por estradas beirando precipícios, onde acampamos a 4200 m no dia 01/agosto para o início do trekking contornando a Cordillera Huayhuash. A expedição contou com estrutura e logística muito bem elaboradas, com guia local, cozinheiro, carregador, ajudante, nove burros e um cavalo. Tivemos ainda as barracas dormitório para cada duas pessoas e uma barraca cozinha com fogão, gás, panelas, utensílios e a comida para todo o percurso de oito dias. Os acampamentos estão normalmente localizados em vales e têm um rio perto. Para ir de acampamento a acampamento é necessário cruzar a montanha passando pelo passo, que normalmente é bem íngreme de exige esforço. O passo mais alto é o de San Antonio com mais de 5000 m de altitude. As vistas de paisagens dos passos são magníficas. As descidas também são exigentes e a temperatura varia muito, caindo bastante quando há vento forte. Finalizamos a Cordillera Huayhuash no dia 09/ago e dormimos em Huaraz nessa noite.

No dia 10/ago tomamos rumo ao primeiro acampamento da Cordillera Blanca, acampando em Hualcallan e entrando pela Quebrada de los Cedros. Todos os dias são desafiadores e exigentes fisicamente. Não há dia fácil na montanha. Nos acampamentos, chegou a fazer -2 ºC dentro da barraca. Do lado de fora, o frio congelou um braço de lagoa e algumas cascatas pequenas de rios. Todas as noites o frio é intenso. O passo Pucaraju é o mais impressionante desta cordilheira, a 4650m e de onde se tem vista de mais de dez picos nevados. O trajeto pela Cordillera Blanca terminou em Vaqueria, onde pegamos a estrada até o acampamento de Cebollapampa na Quebrada Llanganuco, onde começou a preparação para a subida ao cume do Pisco. Dormimos uma noite aí e no dia seguinte subimos até o acampamento base 1 (aprox. 4700 m) aos pés da morena (amontoado de pedras carregadas pelas geleiras) dos picos Huandoy e Pisco. Dormimos e acordamos de madrugada, iniciando o ataque ao cume às 2h40 da manhã do dia 19/agosto. A passagem pela morena foi dura, nos obrigando a subir, descer e subir novamente pelas pedras carregando os equipamentos na mochila. Às 5h30 chegamos no glaciar, onde montamos os equipamentos específicos de gelo e iniciamos o trajeto íngreme, desviando de trechos suspeitos e pulando gretas. É possível sentir que falta oxigênio no ar rarefeito, pois o cansaço vem rápido e o esforço continua grande a cada passo cravado na neve subindo trechos íngremes que seriam impossíveis sem os cranpons e a piqueta. Tivemos a sorte de um dia sem nuvens e sem nevasca. O vento também estava ameno, só me derrubou no chão duas vezes. Atingimos o cume do Pisco (5752 m) às 11h. A vista é magnífica, a sensação de estar no cume do nevado é gratificante e vale a recompensa do grande esforço de chegar lá. Iniciamos o retorno às 11h15, passando pelo acampamento base às 15h30, onde descansei por 45 minutos e segui até o acampamento mais abaixo em Cebollapampa onde terminei a jornada do dia às 18h.

Fica a experiência de desafiar o desconhecido e de aprender com ele, aprender comigo mesmo, me superar, de conhecer outra cultura e o modo de vida das comunidades por onde passei, de fortalecer amizades, de fazer novos amigos, de pensar muito em quais são as pessoas e as coisas importantes na minha vida.

 

            Denis Luque

 

 

 

Publicado por: Denis Luque | 26/10/2009

Arranco-lhe o coração!

Seu gosto… de paixão devota por algo que te fez acreditar, do amargo que te fez desiludir, do salgado do teu suor, do doce do teu olhar.
Que de carrasco viro teu mestre, teu coração é tua vida, nela sou tua veia. E quando me rasgo, me destruo, teu sangue escorre. Meu delírio, meu gozo. Mas te preservo, talvez única, a poupo por ora. Só agora.
                                                                   Z

                     Denis Luque

Publicado por: Denis Luque | 29/08/2009

Tempo acumulado

Quanto tempo se leva para se tomar um tempo para se fazer o que não se tem tempo? Na medida em que o tempo passa, mais ficamos do que passamos, e quanto mais ficamos, mais temos a sensação de que perdemos o tempo. Como seria se o tempo passado não fosse perdido, e sim acumulado? Mas somente aquele tempo que passou e que perdemos, aquele tempo no qual deixamos de fazer algo que queríamos, ou mesmo que não queríamos mas que deveríamos epote2 depois de não feito nos sentimos culpados ou penalizados. Qual seria o tamanho do nosso recipiente deste tempo acumulado? Sobre sua utilidade, lamento ter que considerar que não poderíamos fazer uso de seu conteúdo para o mesmo propósito que o perdemos, pois ao usá-lo estaríamos acumulando o mesmo tanto que perdemos do tempo contínuo na medida em que deixamos passar o tempo atual sem usá-lo.

Houve um tempo no qual pensei que o tempo fosse eterno, um tempo em que eu tinha todo o tempo do mundo, pouco tempo de vida ainda, as perspectivas pareciam longínquas num horizonte sem fim. Era o tempo em que não existia o ontem nem o depois-de-amanhã. O ontem não importava mais, e o depois-de-amanhã parecia que não chegaria nunca. Só havia o hoje e o amanhã. O hoje era a vida explodindo em risos, energia, aprendizado. O amanhã era um misto de esperança e apreensão da novidade que viria, aguardada com certa ansiedade no intervalo entre uma folia e outra do hoje.

O tempo passou, algumas vezes o perdi, outras vezes corri mais que ele. Fico olhando para o meu pote de tempo acumulado… O hoje me parece apenas uma intersecção entre o ontem e o amanhã, uma consequência de cada decisão que tomei durante todo o meu tempo vivido com a perspectiva daquilo que desconheço. Alguns risos, mas ainda muita energia. Continuo aprendendo. Vivendo e aprendendo. Morrendo e aprendendo. Vou entornar o meu recipiente de tempo perdido no ralo da pia… Não quero mais ficar olhando pra ele.

                           Denis Luque

Publicado por: Denis Luque | 06/08/2009

Alongamento

Daquilo que se estica, se tira a folga. Alonga-se, estruda-se. Junto a isto se afina. O esticar afinado do folgado que se alonga. Estico mais um pouco, seu folgado! Alongando perco a folga, fico sem sair. Alongamento, estiramento, rompimentos pequenos somados num esticamento na mesma direção. Prefiro uma esticadela, uma dilação num ócio prazeroso em manhã de sol. Mas por ora, ainda estico. Afino, estiro. Agora vou embora.

                        Denis Luque

Publicado por: Denis Luque | 22/07/2009

A câmara surda

brancoAcordo de sopetão, assustado com a claridade que invade o cômodo onde durmo. As janelas são altas. A única coisa que vejo através delas é a luz do sol entrando. Levanto-me ainda atordoado, piso o chão branco, a cama está no meio do cômodo. Ele me parece bem maior, as paredes estão bem afastadas, brancas, brilhantes…

Num canto vejo alguém pintando um quadro com cores marcantes, traços fortes, sorriso no rosto. Acomodado em sua banqueta, balança o corpo enquanto pinta. Há mais pessoas. Uma outra brinca com água em recipientes transparentes, enchendo de um para o outro com malabarismos, na frente do corpo, rodando por cima dos ombros, trançando por entre as pernas como num balé, fazendo a água fluir como se não houvesse recipiente algum. Outra pessoa se observa ao redor de um grande espelho esférico. Procurando por seus instintos, faz caretas, mexe os braços, aproxima e afasta sua imagem quando acha que seu rosto fica muito grande no reflexo. Agacha, engatinha e se encolhe. Encara sua face na imagem, procura seus olhos e os fixa neles. Seu corpo se arrepia como um felino em ataque e sua energia ganha a imensidão do universo quando seu pensamento atravessa aquela grande esfera pelo túnel de seus olhos.

Vejo mais pessoas, todas ocupadas consigo mesmas. Caminho até uma pessoa que dança em suaves curvas, em perfeita harmonia com as expressões de seu rosto e com a profundidade de seu olhar. Percebo que não ouço o som da música, nem o som de sua voz quando seus lábios parecem querer me dizer algo. Ela me sorri e continua sua dança, fechando os olhos. Eu olho ao redor, percebo o ambiente agora com mais atenção. Não ouço o som das outras pessoas. Pronuncio palavras, às quais escuto bem. Ouço o som dos meus passos, bato palmas, estalo os dedos. Meus sons são perfeitamente audíveis e reais. Aproximo-me de uma pessoa que lê e canta. Suas veias parecem que vão saltar de sua garganta, tamanha a ênfase com que canta. Mas não a ouço, não escuto um som sequer vindo dela. Falo alto ao seu ouvido, grito, gargalho. Percebo que ela não pode ouvir os sons que eu produzo. Nenhuma pessoa consegue ouvir o som produzido por qualquer outra pessoa dentro daquela câmara surda!

Entro em estado de choque com a minha descoberta. Uma ansiedade me invade, quero sair mas não há portas. Ouço minha respiração ofegante. Meus batimentos cardíacos parecem tambores, soam alto e forte. O sangue corre em minhas veias como um rio rápido que contorna rochas e se dobra em corredeiras. Sinto um fio de suor escorrer de minha têmpora. Um calor emana do meu peito, minha roupa me incomoda, rasgo a blusa, saio de mim! Olho para o chão, observo meus passos, meus pés. Paro de caminhar e observo minhas pernas, meu tronco, meus braços, minhas mãos. Ergo a cabeça, fecho os olhos, respiro… Sinto-me leve e uma imensa alegria me invade a alma. Meus risos vibram em minha garganta, meus ombros relaxam, respiro. Redescubro-me no meu silêncio e nos meus próprios sons.

                             Denis Luque

Publicado por: Denis Luque | 15/06/2009

Festa Junina

“Acarajé! Sanduíche de mortadela! Fogazza!” O grito do homem atrás do balcão me chama a atenção, enquanto saboreio um gyoza com shoyu. Sentado à uma mesa próxima ao palco, escuto o DJ tocar axé enquanto espera os violeiros chegarem. O bingo já anuncia seus números do outro lado da festa. A diversidade de comida é grande. Experimento uma sopa de feijão pra espantar o frio. Numa barraca próxima, uma baiana típica vestida à caráter baiano sorri bonita enquanto vende seus espetinhos de camarão. Dá até água na boca! Ao lado, o cachorro-quente vem sem purê, mas dá pra matar a fome.

A sobremesa tem ainda um espaço no estômago, não quis deixar de provar aqueles morangos cobertos com chocolate. Observo crianças brincando naquela piscina de bolinhas coloridas enquanto os pais apreciam sanduíches de pernil. Todas as bandeirinhas coloridas levam o nome de um patrocinador. Atrás dos balcões os chapéus de palha dão lugar às touquinhas de proteção, dessas que não deixam o cabelo cair na comida. Os aventais tomam os lugares daqueles tradicionais vestidos caipiras, e não se usam mais os sapatinhos de salto baixo pois os tênis são mais confortáveis…

O vento frio do finzinho de outono sopra forte, arrepio, festa juninaencolho, olho pro céu. Sinto-me um “jumper” num filme de Doug Liman. Pareço estar em diversos lugares quase que instantaneamente. Onde foi que ficou a fogueira mesmo?  “Ah, não tem não, moço. É muito perigoso!” Os barulhos das biribinhas ainda me tentam convencer de que estou numa festa junina, mas minha visão me trai. Os gostos do quentão e do vinho quente se misturam aos gostos das comidas japonesa, bahiana, italiana, árabe e demais improvisos. Fico pensando nas festas juninas de antes da tal globalização… Havia fogueira, pinhão, amendoim, pé-de-moleque, pipoca, maçã do amor, vestidos caipiras e trancinhas, chapéus de palha e camisas xadrez, barraca do beijo, barraca da cadeia, música típica, brincadeiras, adivinhas, correio do amor, bandeirinhas (inocentes bandeirinhas) coloridas, balões, dança de quadrilhas, pau de sebo. Como era mesmo aquela palavra que caiu de moda há algum tempo? Ah, sim… Tradição! Ficou para trás por conta da global evolução!

                           Denis Luque

Publicado por: Denis Luque | 06/05/2009

A força de um antigo hábito

Uma mulher sai de seu carro, fecha a porta e, enquanto atravessa a rua, estica seu braço para trás mirando seuhabitos_1 controle de fechar travas na direção do veículo. Um pouco adiante, um homem caminha em direção a seu carro e aponta o controle de abrir travas para o seu carro. Ora, pois, os controles remotos de abrir e fechar travas em veículos não precisam ser apontados, apenas acioinados. Mas antes que se julguem tais atitudes que presenciamos no dia-a-dia, devo dizer que somos induzidos por nosso subconsciente  a tais atitudes.

Nós humanos temos a necessidade, quase instintiva,  de classificar algo novo dentro de um conjunto de coisas que já conhecemos. Procuramos similaridade e quando a encontramos, nos sentimos mais confortáveis. Qual foi o primeiro controle remoto que mais ficou conhecido no cotidiano? O da TV, não foi? E, até hoje, temos que apontá-lo na direção da TV para que ele funcione. Depois vieram os controles remotos das garagens, das travas e vidros de veículos, de alarmes, etc, e com uma tecnologia um pouco diferente: não há necessidade de apontar na direção do objeto. Mas, incrivelmente, nos pegamos apontando esses outros controles remotos, por força do hábito mais antigo, e também por clasificarmos todos “no mesmo saco”. Mas quantas outras coisas mais não fazemos ainda, sem perceber, por força de um antigo hábito? Acelerar o carro com  injeção eletrônica ao ligar, perguntar da onde é quando se liga para um telefone celular, esperar chegar em casa para fazer uma ligação do celular, fazer o caminho da casa da mãe logo após casar, chamar os filhos de crianças mesmo quando já se tornaram adultos, chamar toda fotocópia de xerox, chamar o local de trabalho de “firma”, e tantas outras.

Às vezes nos parece mais cômodo não ter que pensar para fazer tais coisas, mas deixamos de acompanhar a mudança. Tudo muda todo dia, cada dia um pouquinho, sempre. E de vez em quando aparecem mudanças bruscas, a evolução aparece em saltos. Pois bem, estejamos preparados para as pequenas mudanças. Quanto às grandes mudanças, nos basta ser fortes para aguentar o tranco!

                                Denis Luque

Publicado por: Denis Luque | 30/03/2009

Extremaventura em Tijucas do Sul – PR

Relato de prova (21/03/09 Tijucas do Sul – PR)

“O GPS travou! O GPS travou!” Meu sono se interrompe em meio a pensamentos nebulosos, entorpecidos, confusos, rápidos e sem nenhum senso racional. Meu corpo tentava se ajeitar no banco semi-reclinado da picape quando ouvi a voz aflita da minha esposa que dirigia. Pude cochilar duas horas, não mais. A viagem dura seis horas e meia, chegamos às três horas da manhã de sábado no hotel. Seis e meia, tomo um café e começo a analisar o mapa dsc00561bda prova. Não há muito tempo para preparar tudo. Meço as distâncias entre os Postos de Controle  (PC) enquanto traço a estratégia… Bike, trekking, canoagem, bike, trekking, bike. Aproximadamente 50 km de desafios me esperam na categoria solo. Escolho o caminho, risco o mapa, plastifico. Não dá tempo de pegar o briefing no Saltinho, então vou direto para a praça. Equipamentos prontos, assino as fichas. Aquecimento, alongamento. Nos momentos antes da largada o clima é tenso, embora sobre um espaço para um papo rápido com outros atletas. 

9h50 – Largada! Pedalo forte no início pra me manter no pelotão da frente. Seguimos por asfalto uns 4 km até a bifurcação para a estradinha de terra. Um concorrente vem no meu vácuo, roda com roda. Olho para trás de “rabo-de-olho” e ele está lá. Pra lá, pra cá, o cara não desgruda! Abrimos do resto do grupo, assumindo a frente. E como mapa-extremaventura-2009-tijucastoda corrida de aventura é uma caixinha de surpresas, surge, 20 metros a nossa frente, um grupo de oito atletas saindo de um atalho. ” Ah, não vou deixar barato!” Passo seis, seguro o ritmo mas mantenho forte. Uma dupla abre na frente e o “meu vácuo” também passa. Mais alguns quilômetros de estradinha e chega a transição no PC1. Largo bike, visto tênis, corro para ducko próximo PC sob sol forte e calor. Assino o PC2 cinco minutos atrás do primeiro na categoria solo e caio na água para 5 km de canoagem no Duck inflável. Algumas corredeiras com pouco volume, remo forte, desvio das pedras. Algumas são traiçoeiras, tenho que sair do barco e puxá-lo na mão pra sair das pedras. Vejo o concorrente na próxima curva, estou chegando perto… Rio abaixo, o PC3 está próximo, saio da água agora no vácuo daquele concorrente… Hehehe, minha vez agora!

Nova transição, pego a bike e os rabiscos do meu mapa me indicam um caminho diferente do resto do grupo… Aposto nesta estratégia! O caminho é mais longo, mas aposto na maior velocidade que o trajeto permite. Sigo levantando poeira por uns 12 km até próximo à entrada para uma estradinha secundária. Há mais ruas do que mostra o mapa, algumas tentativas e chego ao PC4 na frente; tenho alguma vantagem mas não sei quanto. O trecho de trekking rumo ao topo da pedra na Serra do Cabral tem mais de 200 metros de desnível. Corro pela trilha, pelo mato, subo pelas pedras, pelo mato fechado, perco trilha, encontro trilha. A vista lá de cima no PC5 é magnífica! Quando rasguei pelo mato perdi a vantagem sobre o outro concorrente, agora estamos embolados descendo a montanha pela trilha íngreme rumo ao PC6. Tento abrir vantagem correndo o máximo que o terreno permite, mas lá está ele de novo no meu vácuo… Atravessamos o riozinho, trilha aberta em aclive e depois declive até as bikes. Abro alguns segundos de vantagem no final do trekking, faço rápida transição para a bike, desço a trilha rapidamente até a estrada e quando olho para trás… lá está ele de novo, a pouco mais de 20 metros!

Último trecho da prova! Desço pedalando a trilha até a estrada e sigo pelo caminho de volta para mais 10km. Olho para trás e… Adivinha quem está lá? Ele já me passara na primeira perna de bike. O caminho da volta segue o trajeto contrário por onde eu vim. Já sei o caminho. “Aposto que ele está só esperando eu me cansar para dar o bote. Não vou deixar! Não vou deixar a vitória escapar pelos dedos!” Pedalo mais forte, aumentando o ritmo. Algumas vezes mov00569_0001olho para trás e ele está lá a uns 30 metros. Minhas coxas começam a tremer, sinto o ácido lático acumulando… Puxo energia do céu, da terra, do ar, de tudo. A adrenalina jorra no meu sangue.”Sangue nos olhos!” Uma leve descida, curva pra esquerda e… Parecia uma emboscada: seis cachorros avançam na minha direção, latindo forte. Mas esses bichanos sempre dão azar comigo… Do jeito que saio da curva, já pedalando em pé, mais forte, faço cara de mau, mostro os dentes e urro mais alto que seus latidos. Os bichanos pulam pro mato! Vupt! Passo vazado! Aproveito a adrenalina e aumento o ritmo. O concorrente já não está mais no campo visual. Última curva à esquerda, atravesso o portal do Saltinho, desço pedalando forte e ainda olhando pra trás, desta vez com maior frequência. Olho pra lá, olho pra cá, contorno a estradinha, vejo o pórtico de chegada, olho pra cá, olho pra lá e … “Aaahhhh!!!” Cruzo o arco final para uma vitória emocionante!

Prova emocionante com incontestáveis belezas naturais. Fiz novos amigos e conheci lugares diferentes. Alimentei meu contato com a Natureza. Conheci melhor o meu corpo, a minha mente e o meu espírito, e provei a mim mesmo que a minha capacidade de superar os meus limites ainda é viva!

                         Denis Luque

 

Publicado por: Denis Luque | 24/02/2009

O Guerreiro e Sua Essência

Acauã e Jacira haviam se conhecido nos jogos indígenas do ano anterior. Embora fossem de tribos diferentes, casaram-se. Tiveram o consentimento de ambas as tribos que, ainda adversárias na competição, eram amigas. Acauã era um guerreiro respeitado por suas conquistas e por sua generosidade. Era o cacique de sua tribo. De um conhecimento ímpar, tinha a visão além do alcance das turbulências de picuinhas cotidianas. Já bem vivido, sempre era procurado para dar conselhos e orientações. Jacira era bela, divertida e alegre, tinha a capacidade de aglomerar as pessoas em torno de sua amizade.

No torneio que viria, Acauã preparou-se com seu melhor amigo para formarem uma dupla na competição. Acauã e Ubiratã, seu amigo, competiram bravamente contra muitos outros guerreiros. Durante as comemorações do evento, Ubiratã conheceu a formosa Potira, amiga de Jacira.

indiosinhosEnamoraram-se Ubiratã e Potira. Tentaram se entender. Brigaram, separaram-se então. Potira chorou e procurou Acauã para pedir-lhe conselho a respeito do amigo guerreiro Ubiratã. Acauã refletiu muito. Convidou Potira para um ritual a fim de explicar a ela a essência da alma de um guerreiro.

“Nós guerreiros buscamos a superação dos nossos limites físicos e psicológicos. Isto denota uma qualidade de expansão de nossos domínios, uma ânsia por liberdade e conquista. Liberdade refere-se ao romper a barreira dos limites, e refere-se ao poder de escolha. A conquista refere-se ao domínio sobre si mesmo, à expansão de espaço, da velocidade e do tempo. Em resumo, um espírito guerreiro.” Potira mostrou-se atenta, seus olhos piscaram e se arregalaram, como que seus ouvidos seguissem a mesma dilatação. E Acauã continuou, dizendo “Nisto, um desafio é algo a ser conquistado, se quisermos. Liberdade e conquista estão presentes. Há a liberdade de escolha de se fazer essa conquista. O guerreiro não aceita ser dominado ou escravizado, ele prefere enfrentar a morte a aceitar essa submissão. O campo de batalhas é transposto para o campo de relacionamento da mesma forma. Ele quer liberdade e conquista.” Potira ameaçou interromper, mas os olhos de Acauã a impediram. Ela fez sinal para que ele continuasse, precisava saber mais.

Acauã acenou para que ambos se sentassem no grande tronco caído que servia de descanso para os guerreiros nosindio intervalos dos jogos. “Esta liberdade é física e mental”, continuou. “O guerreiro assume as responsabilidades daquilo que faz, assume o tomar conta de si mesmo. Porém, carregar outra pessoa como sua responsabilidade seria o mesmo que arramar esta grande tora nos seus pés. Ele jamais quererá ser responsável pela felicidade de alguém, pois ele não precisa de alguém para ser feliz, ele é feliz por si mesmo. Ser feliz é uma responsabilidade individual. E ele deseja isto para a outra pessoa, ou seja, ele espera que a outra pessoa também seja responsável por si mesma. Sendo, então, as duas pessoas felizes por responsabilidades de si mesmas, então elas poderão ter uma convivência que não fira os valores do guerreiro. Este é o respeito que ele espera da outra pessoa.”

Acauã ergueu suas mãos em direção à fogueria, juntou as palmas e trouxe ao peito. “No dia-a-dia, os mesmos valores estão presentes, sempre. No momento em que você passa a exigir do guerreiro, você está tirando a liberdade de escolha dele, e ao mesmo tempo não lhe dá a oportunidade da conquista. Então ele perde o interesse, pois sente-se desrespeitado. O relacionamento com um guerreiro deve ser um convite, jamais uma exigência. Se você quer algo dele, convide-o a isso. Será muito mais saudável e mais gostoso. Mas lembre-se de que ele tem a liberdade de escolha, e tem o direito de dizer não. Você não deve ficar triste se a resposta dele for não, afinal, a felicidade não depende do outro, você é feliz por si mesma. Convide-o novamente numa outra oportunidade, de maneira diferente. Esta exigência de que falo é bem abrangente…É como o céu que carrega as estrelas… Jamais exija que ele seja gentil com você. Ele será se quiser fazê-lo, se sentir que estará conquistando você com isso. Não exija que ele se lembre de datas que você julga importantes, ou mesmo que ele lhe traga a Lua no dia do seu aniversário. Sua felicidade não deve depender disto.”

Potira formava imagens na sua cabeça. Guerreiros, Lua, animais selvagens, gritos. Tudo se movia rápido demais para que ela pudesse definir o que acontecia. Acauã pousou a mão em sua nuca, tirando-a do transe. “Permita que haja a oportunidade dele conquistar você. Situações falsas são facilmente percebidas pelo guerreiro, ele pode não dizer, mas sente. Emboscadas são as piores táticas que se pode querer usar com um guerreiro, sua flecha voltará para você. Jamais tente manipulá-lo ou colocá-lo em situações que você sabe que ele não quer passar. Isto é traição. Seja sincera, mas respeite-o. Saiba observar e perceber quando você está sendo invasiva. O guerreiro precisa também de tempo só pra ele, precisa de momentos de solidão para equilibrar as energias. Saiba perceber este momento. Lembre-se de seus instintos. Você liga seu instinto quando está na presença de um animal selvagem. O guerreiro também é animal, seu instinto está muito mais presente na sua vida do que na maioria das pessoas.”

india1Potira fitou a grande Lua daquela noite e deixou o vento invadir seus mais intrínsecos pensamentos. Terminado o ritual com Acauã, saiu a caminhar sozinha pelo leito do rio que refletia não só a Lua, mas a sua alma. A vida para ela era simples. A conquista existia uma única vez e a distância era a maneira que entendia sobre como respeitar a individualidade. Entendia que ser feliz era uma característica nata, mas precisava reforçar este dom em si mesma nos gestos e palavras sublimes de outrém. Acreditava na espontaneidade do prazer, do respeito, da sinceridade, como as flores que desabrocham em dias ensolarados e atraem os insetos para espalhar o pólen. Negava a existência de seus espinhos e dos dias chuvosos. Sedutora, provocante, gostava do sabor desse mel. Julgava-se segura de si ao mesmo tempo em que necessitava da confirmação da sua felicidade.

Ubiratã e Potira nunca mais de viram. Cada um seguiu o seu caminho e foram felizes para sempre.

 

                                Denis Luque

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